O cisma entre maçons antigos e modernos e o Arco Real
De onde vem o Arco Real? Entenda como o cisma do século XVIII entre maçons antigos e modernos deu origem ao grau, segundo George Oliver.
Poucos graus da Maçonaria despertam tanta curiosidade quanto o Arco Real. Para muitos maçons, ele é a conclusão natural do grau de Mestre, o lugar onde se recupera aquilo que o terceiro grau deixa em suspenso. Mas essa ligação íntima levanta uma pergunta simples, e difícil de responder: se o Arco Real completa o grau de Mestre, por que ele não fazia parte da Maçonaria desde o início?
A resposta passa por um dos episódios mais tensos da história da Ordem na Inglaterra: a divisão, ao longo do século XVIII, entre os chamados maçons antigos e os maçons modernos. Foi nesse ambiente de disputa, de acusações mútuas e de rituais alterados, que o Arco Real ganhou forma.
Uma Grande Loja, depois duas
Em 1717, quatro Lojas de Londres fundaram a primeira Grande Loja. Uma de suas primeiras decisões foi exigir que toda nova Loja trabalhasse sob carta patente do Grão-Mestre. O antigo costume de Maçons se reunirem livremente para iniciar candidatos deixava de existir.
Por volta de 1737 ou 1738, alguns Irmãos passaram a trabalhar em Lojas sem autorização, iniciando e elevando candidatos por conta própria. Em junho de 1739, a Grande Loja examinou as queixas contra eles e acabou por perdoá-los, mediante promessa de boa conduta. Os infratores tomaram o perdão como censura e seguiram reunindo-se à margem das constituições.
Para impedir que esses Irmãos visitassem as Lojas regulares, a Grande Loja adotou uma medida que George Oliver chama de “extremamente mal-julgada”: uma leve alteração no sistema, destinada a identificar os cismáticos. O efeito foi o oposto do pretendido. Os dissidentes passaram a se apresentar como guardiães da tradição e chamaram a si mesmos de maçons antigos, deixando para a Grande Loja original o rótulo de modernos.
O paradoxo dura até hoje: os “antigos” formavam o corpo mais recente, e os “modernos”, o mais antigo.
Os primeiros sinais do Arco Real
A menção mais antiga ao Arco Real que Oliver encontrou na Inglaterra é de 1740, um ano depois daquela alteração feita pela Grande Loja. A coincidência de datas é o ponto de partida de toda a sua investigação.
Pouco depois, os maçons antigos passaram a declarar publicamente que “a Maçonaria Antiga consiste em quatro graus”: Aprendiz, Companheiro, Mestre e, como quarto, o Santo Arco Real, apresentado como “o cume e a perfeição da Maçonaria Antiga”. A frase está no preâmbulo das leis do Arco Real reproduzidas no Ahiman Rezon, o livro de constituições compilado por Laurence Dermott, Grão-Secretário e depois Grão-Mestre Adjunto dos antigos.
Os modernos reagiram com desconfiança. Em 1755, a Grande Loja reprovou quem introduzia “novidades” para fazer crer que existiam sociedades de Maçons mais antigas que ela. Três anos depois, foi mais direta e declarou nada saber “nem de Arco, nem de Arco Real”.
A tese de Oliver: a Palavra separada do terceiro grau
Para Oliver, o Arco Real nasceu de uma divisão do grau de Mestre. Nas primeiras lições da Grande Loja, redigidas por Payne, Anderson, Desaguliers e outros, aquilo que se perdera no terceiro grau era recuperado no próprio terceiro grau. Um quadro de traçado do grau de Mestre, publicado no Continente pouco depois de 1725, ainda trazia esse elemento em posição de destaque.
Entre os maçons antigos, porém, a conclusão do terceiro grau foi destacada e transformada num grau à parte. Oliver encontra a pista no próprio Ahiman Rezon, que afirma ser impossível exaltar um maçom moderno ao Arco Real sem antes lhe conferir o grau de Mestre segundo as cerimônias dos antigos. Se o Mestre moderno já recebia a Palavra no terceiro grau, o Arco Real nada lhe acrescentaria.
Daí a conclusão do autor: a diferença entre os dois sistemas estava, no essencial, na mutilação e na extensão do terceiro grau. Oliver reconhece que os primeiros rituais dos antigos eram imperfeitos e misturavam elementos de graus continentais, o que, a seu ver, revela um grau ainda na infância.
Dunckerley e a chegada do grau aos modernos
Apesar da recusa oficial, o Arco Real acabou adotado também entre os modernos. O nome central dessa passagem é Thomas Dunckerley, que levou a lição do grau à Grande Loja em 1776. Segundo Oliver, essa versão ainda guardava referências tanto à Maçonaria do Ofício quanto ao Cristianismo.
Em 1782 foram aprovadas as primeiras Leis e Regulamentos do Arco Real sob a Grande Loja constitucional, precedidas de um breve ensaio que Oliver atribui ao próprio Dunckerley. O autor reconhece o mérito do texto, mas lamenta que Dunckerley não tenha corrigido as incoerências do grau herdado dos antigos.
Um testemunho material dessa fase é o pano de chão do Capítulo de São Miguel nº 24, de Chester, pintado em seda e com carta patente de 9 de fevereiro de 1781. Oliver o usa para mostrar como emblemas próprios do terceiro grau aparecem num quadro do Arco Real, o que, para ele, denuncia a fonte de onde o grau foi extraído.
A União de 1813 e o lugar do Arco Real
O cisma durou quase todo o século XVIII. Os antigos ganharam força com o patrocínio do Duque de Athol, e os dois lados cresceram em número e prestígio. A reconciliação veio em 1813: o Duque de Kent assumiu o Grão-Mestrado dos antigos declarando que o fazia apenas para promover a união, e as duas Grandes Lojas se fundiram.
Os Artigos da União resolveram a questão do Arco Real com uma fórmula conciliadora: o grau passaria a ser considerado complemento do terceiro grau. Em 1817 foi a vez dos dois Grandes Capítulos se unirem. Os regulamentos fixaram ainda que o Grão-Mestre, sendo maçom do Arco Real, seria o Primeiro Grande Principal, um vínculo que mantém Loja e Capítulo ligados até hoje.
A solução de 1813 confirma, de certo modo, a tese de Oliver. Se o Arco Real precisou ser declarado complemento do grau de Mestre, é porque nascera de uma parte desse mesmo grau.
Quem foi George Oliver
George Oliver (1782–1867) foi clérigo anglicano e um dos autores maçônicos mais lidos do século XIX. Iniciado em 1801 e exaltado ao Arco Real em 1813, chegou a Grão-Mestre Provincial Adjunto de Lincolnshire. Escreveu A Origem do Arco Real aos oitenta e cinco anos, com mais de seis décadas de vida maçônica, apoiado nas atas da Grande Loja, no Ahiman Rezon e em manuscritos de sua coleção.
Sua tese não é a única sobre o tema, e historiadores posteriores discutiram vários de seus pontos. Mas a pergunta que ele formulou continua sendo o caminho mais seguro para entender o grau: o Arco Real não surgiu isolado, e sim no meio de uma disputa sobre o que era, afinal, a Maçonaria autêntica.
A Origem do Arco Real, de George Oliver, está disponível em tradução pela Editora Oriente.
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